O VÔO DAS ÁGUIAS

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Atualização semanal

A Sabedoria do Mendigo


A Sabedoria do Mendigo

 
Serapião era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao
seu  lado, o fiel escudeiro, um vira lata branco e preto, que atendia pelo
nome  de Malhado.
 Serapião não pedia dinheiro. Aceitava sempre um pão, uma banana, um
pedaço  de bolo ou um almoço feito com sobras de comida dos mais abastados.
Quando  suas roupas estavam imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma  caridosa.
Mudava a apresentação e era alvo de brincadeiras. Serapião era conhecido
 como um homem bom, que perdera a razão, a família, os amigos e até a
 identidade.
> > Não bebia bebida alcoólica, estava sempre tranqüilo, mesmo quando não
> > havia recebido nem um pouco de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria
um
 pouco na hora certa e, sempre na hora que Deus determinava, alguém lhe
 estendia uma porção de alimentos.
 Serapião agradecia com reverência e rogava a Deus pela pessoa que o
 ajudava. Tudo que ganhava, dava primeiro para o Malhado, que, paciente, comia e ficava à espera por mais um pouco.  Não tinham onde dormir; onde anoiteciam, lá dormiam. Quando chovia,
 procuravam abrigo embaixo da ponte do Ribeirão Bonito e, ali, o mendigo
 ficava a meditar, com um olhar perdido no horizonte.
 Aquela figura me deixava sempre pensativo, pois eu não entendia aquela
 vida vegetativa, sem progresso, sem esperança e sem um futuro promissor.
 Certo dia, com a desculpa de lhe oferecer umas bananas, fui bater um
papo  com o velho Serapião. Iniciei a conversa falando do Malhado, perguntei
 pela idade dele, o que Serapião, não sabia. Dizia não ter idéia, pois se
 encontraram um certo dia quando ambos andavam pelas ruas.
- Nossa amizade começou com um pedaço de pão - disse o mendigo. - Ele
 parecia estar faminto e eu lhe ofereci um pouco do meu almoço e ele
 agradeceu, abanando o rabo, e daí, não me largou mais. Ele me ajuda
muito  e eu retribuo essa ajuda sempre que posso.
 - Como vocês se ajudam? - perguntei.  - Ele me vigia quando estou dormindo; ninguém pode chegar perto que ele
 late e ataca. Também quando ele dorme, eu fico vigiando para que outro
 cachorro não o incomode.
 Continuando a conversa, perguntei:
- Serapião, você tem algum desejo de vida?
 - Sim - respondeu ele. - Tenho vontade de comer um cachorro quente,
 daqueles que a Zezé vende ali na esquina.
 - Só isso? - indaguei.
 - É, no momento é só isso que eu desejo.
 - Pois bem, vou satisfazer agora esse grande desejo.
 Saí e comprei um cachorro quente para o mendigo. Voltei e lhe entreguei.
 Ele arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e em seguida tirou a salsicha, deu para o Malhado, e comeu o pão com os temperos. Não  entendi aquele gesto do mendigo, pois imaginava ser a salsicha o melhor
 pedaço. 
 - Por que você deu para o Malhado, logo a salsicha? - perguntei,  intrigado.
 Ele, com a boca cheia, respondeu:
 - Para o melhor amigo, o melhor pedaço! E continuou comendo, alegre e
 satisfeito.
Autor: Innocêncio de Jesus Viégas
 
Enviou: Margarida Locateli-Coopercampos/SC
 
 
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