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Depois de muito caminhar e correr pelo campo
afora, certo cervo saiu à procura de alguma fonte,
onde houvesse águas frescas e cristalinas para matar-lhe
a sede. Não demorou muito encontrar um regato que,
embora bem
pequenino, tinha águas limpas e frescas. Sem demonstrar
pressa, abaixou-se tranquilamente e pôs-se a sorver
o líquido procurado. Após dessedentar-se,
o
cervo teve a sua atenção despertada para alguma
coisa que nunca antes observara. Ele viu, espelhado nas
águas superficiais do pequeno regato, as suas pernas
compridas e tortas que formavam um triste contraste com
oS seus
formosos chifres dispostos em galhos.
É bastante verdade o que as pessoas
dizem a meu respeito; exclamou o cervo.
Supero a todos os demais da minha espécie, em graça
e nobreza! Que elegância majestosa se pode verificar,
quando levanto graciosamente a minha galhada!
Entretanto, há uma triste e incontestável
verdade,
ao lado de tudo isto: contrastando com essa exuberância
estão os meus pés tão horrorosos.
Enquanto desgostoso escarnecia e ironizava a feiúra
dos seus pés tão tortos e desengonçados,
eis que vê sair da floresta, e vindo em sua direção,
um
esfomeado leão... Pés, para que lhes quero?...
e em dois saltos firmes e velozes colocou-se fora do alcance
do inimigo. Todavia, a fábula continua contando que,
na sua
precipitada fuga, o cervo resolveu passar por um apertado
trilho entre as árvores. Não havia avançado
muito, quando teve a sua galhada
presa num espinhal, cujos ramos delgados se emaranharam
formando um verdadeiro alçapão. Lutou desesperadamente
para se desprender dali, mas todo
o esforço foi em vão e enquanto isto o mesmo
leão o alcançou, devorando-o
sem compaixão... Assim, os pés que o animal
tanto depreciava o levariam a salvo, se a galhada
de que tanto se orgulhava não o fizesse perecer.
Envolvida nas tramas dessa fábula há uma grande
verdade: é a que sempre nos perdemos através
do objeto do nosso orgulho! Nada justifica a nossa soberba,
por causa daquilo que há de mais atraente e melhor
em nós mesmos, assim como não temos o direito
de depreciar as coisas
que mais se destacam em nossas limitações.
Quando aplicamos despretensiosamente os nossos talentos
em benefício de uma causa justa, certamente que aquilo
que consideramos limitado, reduzido em nossa
capacidade, nem será notado em face das realizações.
Nunca nos esqueçamos do fato de que a soberba abate,
mas a humildade enobrece!
Colaboração:Luciano Costa-Recife-PE
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